A OFERENDA A MAMON

Mamon significa “riqueza” ou “dinheiro”e é não raro personificada como sendo uma entidade que promete riquezas

Gentil Cutrim Serra Júnior (*)

Em meio à tragédia presente, frases como “o mercado amanheceu nervoso” e “a economia não pode parar” são repetidas por muitos gestores políticos, líderes religiosos e personagens da elite brasileira. Diante de incertezas, a preocupação generalizada é saber como podemos evitar uma grave recessão pós-pandemia.

As frequentes crises do atual sistema econômico ameaçam cada vez mais a existência da nossa sociedade. Nelas desencadeiam-se epidemias sociais que nos reconduzem a uma situação de barbárie momentânea. O comércio parece estar aniquilado. Por quê? Há excesso de mercadorias nas prateleiras, os centros comerciais cerraram suas portas. O que deve ser feito?

A pandemia do novo coronavírus fez ressuscitar o discurso que norteou a concepção do liberalismo: o darwinismo social. A teoria de Herbert Spencer defende que os mais ricos e poderosos são os mais aptos na competição social, trazendo consigo a ideia de indiferença social, em que os mais frágeis estão fadados à morte. No Brasil, essa narrativa está presente no discurso do chefe do executivo e de um grupo de empresários que consideram a morte de idosos como perdas colaterais no processo de salvar os grandes negócios. Historicamente, nas pandemias, é comum esse discurso de descarte de corpos porque não é possível sustentar a vida e o sistema ao mesmo tempo. Mais do que uma imoralidade, é uma tentativa de preservar o funcionamento de um sistema que trata as pessoas como mera estatística.

As mentes dos homens de negócios parecem estar possuídas pelo lucro, razão pela qual falam somente de interesses e benefícios, mesmo em situação de catástrofe. Para muitos líderes religiosos não é diferente. O dinheiro passou a ser a essência das suas existências e essa essência o dominam. Para eles, as oferendas da Fogueira Santa passou a ser um serviço essencial em meio ao caos instalado. Eles adoram Mamon não somente com os lábios, mas com todas as forças do corpo e do espírito, para quem o amor ao dinheiro virou virtude (1 Timóteo 6:10). E neste momento em que esses sacerdotes perderam o controle sobre os poderes enigmáticos, é necessário decifrar as relações e condições encantadas, quebrar o feitiço, profanar a riqueza.

Mamon, embora fantasmagórico, não é um deus propriamente dito. Refere-se a relações de domínio dotadas de uma força imanente. Ergue-se como um fator fundamental de mascaramento do estado de coisas, indispensável para o funcionamento desta nossa sociedade do consumo. Demonstrado na personificação dos mercados financeiros, leva-nos a tratar a economia como um encanto, mistificando-a por sentimentos (nervosa, frágil, assustada) revestidos de um poder sobrenatural, enquanto os seres humanos são coisificados, tratados como números, a fim de fazer o mecanismo financeiro movimentar-se.

Neste momento de crise, os ricos declaram um plano de guerra contra os trabalhadores em prol da preservação dos seus lucros e uma política ineficaz contra a pandemia do Covid-19. As elites usam o aparato estatal para preservar a ordem, as relações de propriedade e para salvar as grandes empresas da falência, às custas da vida de milhões de brasileiros. Não por acaso, os medicamentos irão sofrer reajustes de 4% em 1º de abril. Infelizmente não é piada. Nos últimos anos, com a aprovação de reformas legislativas, muitos trabalhadores foram colocados em situação de vulnerabilidade. Um sacrifício humano para melhorar a “saúde” dos mercados financeiros. Segundo os sacerdotes desse capital feiticeiro, digo fictício, o mote é “se a reforma passar, o dólar vai baixar”. Não baixou!

O combate a essa pandemia requer uma ação que coloque todos os recursos (econômicos, materiais e humanos) a serviço do combate ao coronavírus, com garantia de segurança alimentar e de saúde para toda a população trabalhadora, ampliando a capacidade do SUS. Como exemplo de ações efetivas, poderíamos determinar a utilização imediata de prédios públicos e privados que não estejam atendendo sua função social para servir de centros de atendimento à saúde das pessoas. A sociedade deve exigir ainda o aporte de dinheiro por parte das instituições financeiras, considerando seus lucros em 2019, a ser destinado para investimento imediato no SUS. Portanto, o princípio essencial que deve orientar a resposta à crise é que as necessidades do ser social, em sua coletividade, devem ter prioridade absoluta sobre os interesses do benefício privado.

(*) Gentil Cutrim Serra Júnior (@gentil_cutrim) é Doutor em Políticas Públicas e Membro da Igreja Batista Missionária em São Luís (MA)

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